Para os exilados, Poesia e Música de África, de primeira água, em podcast.
http://multimedia.rtp.pt/
Obrigado Sr. Agualusa.
Friday, October 12, 2007
Sunday, September 30, 2007
Lemur 2007-09-22 (to Ernst Mayr)
Our eyes are big
We are small,
insignificant,
hidden in trees
only moving, carefully
in the night
sometimes our bodies
still shake to the stampede
of old big beasts
and we cling to branches
beasts are gone
we are still inside you
somewhere
small man
We are small,
insignificant,
hidden in trees
only moving, carefully
in the night
sometimes our bodies
still shake to the stampede
of old big beasts
and we cling to branches
beasts are gone
we are still inside you
somewhere
small man
Two sidewalks 2007-09-25
The steep street
Her minuscule steps and dress
Stilletos beat irregular compass
On concrete, bordering collapse
Entering the night of parties.
Just across, on the porch
of the film center
crouched tiny body,
woman or youngster
already asleep.
Her minuscule steps and dress
Stilletos beat irregular compass
On concrete, bordering collapse
Entering the night of parties.
Just across, on the porch
of the film center
crouched tiny body,
woman or youngster
already asleep.
Elis Regina canta Belchior
Bela letra, remetendo para os anos 60, muito mais rock que bossa nova, saco cheio da ditadura a alertar para as nossas ditaduras internas, pais, genes, conformismo. Elis Regina com garra de rockeira.
Elis Regina - Como Nossos Pais
Belchior
Elis Regina - Como Nossos Pais
Belchior
Não quero lhe falar meu grande amor das coisas
que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi e tudo que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar, eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto é menor do
que a vida de qualquer pessoa
Por isso cuidado meu bem, há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal está fechado prá nós
que somos jovens
Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz
Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada com uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração
Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento,
gente jovem reunida
Na parede da memória essa lembrança é o quadro
que dói mais
Minha dor é perceber que apesar de termos feito
tudo que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos...
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais
Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências
não enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que 'eu tô por fora, ou então
que eu tô inventando'
Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem
Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência
e juventude
Tá em casa guardado por Deus contando vil metal
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo,
tudo, tudo que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos...
Ainda somos os mesmos e vivemos...
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais!
(Letra retirada de vagalume.uol.com.br)
Notas a precisar de revisão
Um amigo ouve uma música e lembra-se de outro.
Quando um amigo se lembra de outro dá-lhe existência.
Existência mais que possível, a da imaginação vivida, à distância sem rede?
Suspeito que atingimos nesses momentos uma parcela desse sentido que tanto nos atormenta.
Enquanto não caminhamos na criação espontânea do laço, o que importa é existir algures, na imaginação de alguém.
Sonhei contigo esta noite, acordado. Mas estavas lá. Vivias em dois sítios, multiplicavaste.
Quando um amigo se lembra de outro dá-lhe existência.
Existência mais que possível, a da imaginação vivida, à distância sem rede?
Suspeito que atingimos nesses momentos uma parcela desse sentido que tanto nos atormenta.
Enquanto não caminhamos na criação espontânea do laço, o que importa é existir algures, na imaginação de alguém.
Sonhei contigo esta noite, acordado. Mas estavas lá. Vivias em dois sítios, multiplicavaste.
Cores Tristes
Cores tristes
suaves, até cortinados
azuis, efémeros rosas
tremeluzentes
televisores
janelas de gente alheia
esbugalhada
suaves, até cortinados
azuis, efémeros rosas
tremeluzentes
televisores
janelas de gente alheia
esbugalhada
Jantar III - Sabores Africanos 2007-09-22
Hoje começo por abrir uma garrafa de Quinta dos Roques 2003. Quem viu o Dão há uns dez anos e quem o vê. O Douro conserva o seu reinado mas terá pelas Beiras um adversário sofisticado dentro de alguns anos.
O vinho revela-se extremamente equilibrado com o carvalho a emoldurar o conjunto de frutos silvestres muito maduros e um ligeiro toque picante da casta Jaen no final que considero bem agradável. Agrada-me a coragem de incluir esta casta indomável num vinho.
A baguete Sourdough estava morna. Compro Mozzarella de vaca, à partida conformado com a sua falta de carácter, mas vingo-me com uns tomates cherry e um basilico que escurece em sucos quando o corto e se revela de uma doçura final de anis deliciosa.
O azeite é um DO Baena que isto de poupar na qualidade do azeite para consumir frio tem custos elevadíssimos.
Atiro umas kalamatas para o meio e lá vou aquecendo pão e preparando o jantar.
A receita é do "Na Roça com Tachos", e é uma receita de S. Tomé, camarão com banana pão.
Refogado de cebola, gengibre e meio chile vermelho, acrescenta-se o tomate e já está.
Eu, fraco e pobre, não resisti a acrescentar uns pedacinhos de mandioca fresca o meu sabor africano de eleição.
O camarão são cinco minutos, a mandioca outros cinco e a banana menos.
A ligação entre a banana e o camarão, com o pano de fundo do gengibre, é daqueles casamentos abençoados, como o tomate e a mozarella, com o basílico a perfumar.
Que saudades de moamba e cachupa, sabores simples e intensos dessa Lisboa atlântica, mas como deve ser, até lá baixo ao Cabo da Boa Esperança.
Para aqueles que se riam das minhas saudades de dançar e de ouvir música africana tenho duas palavras:
Dobet Gnahore.
Vem da Costa do Marfim a Seattle, de propósito para matar as minhas saudades de calor africano, canta bem e dizem que tem uma energia ao vivo espectacular.
Agradecimentos ao Jazz Alley que já acolheu a Lura nesta cidade cosmopolita.
Mas hoje a música ao jantar foi outra. O Concerto Italiano de J.S.Bach e outras pérolas pela Sra Dna Angela Hewitt.
A alma fica a sentir que se esta música cessar ela morre, como se ela fosse o próprio fio condutor da vida e da emoção.
Se algum dia me virem num caixote de madeira procurem no ipod algum Bach para tecla ou alguma apoteose de Rameau ou Lully.
Sei que os meus amigos cantarão em coro o 'Catalogo' do D.Giovanni e rirão a bandeiras despregadas das minhas espiritualidades vínicas e gastronómicas.
'Madamina, il catalogo è questo', bem hajas Giuseppe Taddei, grande Leporello.
O vinho revela-se extremamente equilibrado com o carvalho a emoldurar o conjunto de frutos silvestres muito maduros e um ligeiro toque picante da casta Jaen no final que considero bem agradável. Agrada-me a coragem de incluir esta casta indomável num vinho.
A baguete Sourdough estava morna. Compro Mozzarella de vaca, à partida conformado com a sua falta de carácter, mas vingo-me com uns tomates cherry e um basilico que escurece em sucos quando o corto e se revela de uma doçura final de anis deliciosa.
O azeite é um DO Baena que isto de poupar na qualidade do azeite para consumir frio tem custos elevadíssimos.
Atiro umas kalamatas para o meio e lá vou aquecendo pão e preparando o jantar.
A receita é do "Na Roça com Tachos", e é uma receita de S. Tomé, camarão com banana pão.
Refogado de cebola, gengibre e meio chile vermelho, acrescenta-se o tomate e já está.
Eu, fraco e pobre, não resisti a acrescentar uns pedacinhos de mandioca fresca o meu sabor africano de eleição.
O camarão são cinco minutos, a mandioca outros cinco e a banana menos.
A ligação entre a banana e o camarão, com o pano de fundo do gengibre, é daqueles casamentos abençoados, como o tomate e a mozarella, com o basílico a perfumar.
Que saudades de moamba e cachupa, sabores simples e intensos dessa Lisboa atlântica, mas como deve ser, até lá baixo ao Cabo da Boa Esperança.
Para aqueles que se riam das minhas saudades de dançar e de ouvir música africana tenho duas palavras:
Dobet Gnahore.
Vem da Costa do Marfim a Seattle, de propósito para matar as minhas saudades de calor africano, canta bem e dizem que tem uma energia ao vivo espectacular.
Agradecimentos ao Jazz Alley que já acolheu a Lura nesta cidade cosmopolita.
Mas hoje a música ao jantar foi outra. O Concerto Italiano de J.S.Bach e outras pérolas pela Sra Dna Angela Hewitt.
A alma fica a sentir que se esta música cessar ela morre, como se ela fosse o próprio fio condutor da vida e da emoção.
Se algum dia me virem num caixote de madeira procurem no ipod algum Bach para tecla ou alguma apoteose de Rameau ou Lully.
Sei que os meus amigos cantarão em coro o 'Catalogo' do D.Giovanni e rirão a bandeiras despregadas das minhas espiritualidades vínicas e gastronómicas.
'Madamina, il catalogo è questo', bem hajas Giuseppe Taddei, grande Leporello.
Saturday, September 15, 2007
Jantar II - Homenagem a Manuel Vásquez Montalbán
Foto de Hado Lyria em Vespito.net
Confesso que quem me ocorre invocar é Pepe Carvalho, essa personagem tão viva e completa que me acompanha nas horas menos boas, quase um amigo. Em simultâneo é a nemesis da minha geração, como se a nossa inconsciência política e ausência de posicionamento minorassem a nossa entrega ao cinismo. Não deixem de consultar a Crónica Sentimental de Espanha para uma guisado perfeito de literatura, humor, política e profundidade de análise.
Mas já servi um copo de vinho ao homem, Montalbán, está ao pé da garrafa, para evitar cerimónias. Um branco de Gironde que não envergonha ninguém. O Pepe tinha sempre garrafas múltiplas quando recebia amigos, mas hoje é só uma.
Ora no tacho já estão as cascas das gambas, os ossos e as gorduras da galinha do campo que formarão um caldo bafejado com as notas cítricas do Bordéus seco. E as cabeças das gambas? Nem vê-las que os Jívaros locais passaram por aqui, não se suporta ver os olhinhos dos bichos nos pratos!
A homenagem consiste na receita dos Pássaros de Bangkok, vermicelli com gambas e frango, e não fui à internet pois quero que isto seja de memória e coração.
Ora foi com esta receita que me converti aos guisos e aprendi a fazer o sofrito do azeite com a cebola, pimento e tomate à Josep Pla, sempre à beira da secura e concentrado.
Depois disso é apenas ter cuidado com os Vermicelli pois são muito sensíveis, às vezes dois minutos chegam para os cozer, depois de demolhados. Ficam com uma consistência parecida ao tacto com cabelo. Eu só arranjei Bifun, e espero que tenham as miraculosas propriedades de absorção e conservação de sabores que os bons Vermicelli têm.
Devo também ao Pepe um tesouro para quem é arisco ao refogado com o alho, e só o faz muito depois da cebola já estar a amaciar há muito tempo. O tesouro é deixar o alho picadinho em azeite virgem e pô-lo um ou dois minutos antes do fim. É inacreditável a suavidade do paladar do alho, mesmo quando posto em grandes quantidades.
Recapitulando, a cebola fica no tacho em azeite com uma colher de óleo de sésamo tostado. Depois de começar a dourar vem o pimento vermelho e depois o tomate em lata sem sumo.
Sempre a regular a temperatura para eliminar a humidade excessiva.
Os temperos foram sal, pimenta curcuma e meio jalapeño fresco.
Depois vem a galinha, previamente marinada em lima e sal.
É necessário ser generoso quando se faz o caldo pois a capacidade de absorção de líquido da massa de arroz é enorme, mesmo sendo ela delgadíssima.
Dois minutos é a altura de juntar as gambas, o Bifun, e o alhinho com o azeite a um minuto do final junto com coentros ou salsa frescos se for do vosso agrado. Acrescentei rebentos de bambu à receita. A iguaria deve repousar cinco minutos antes de ser servida.
As tostinhas hoje foram de uma baguete de Sourdough barrada com azeite e uns tomates cherry deliciosos.
Não caiam na esparrela de pôr o azeite no pão antes de este ir ao forno. Depois!
A música é o Sr Anibal Troilo a cantar com a Orquestra de Edmundo Rivero, que não tenho aqui boleros do agrado de Pepe Carvalho ou Mompu.
Um abraço invejoso a todos os que estão a dançar na festa de Cabo Verde na Incrível Almadense.
Wednesday, September 12, 2007
Autocarro IV
O negro entra com uma pála no olho direito e um barrete azul com letras amarelas dos Bellevue Wolverines. Tem um carro de rede de compras com os seus pertences e produtos de limpeza vários, que prende com um elástico de segurança a uma das barras do autocarro. Uma embalagem de limpa-vidros cai, eu apanho-a e faço menção de lha dar mas ele aponta soberano para o carro onde o súbito súbdito a deve colocar. Do barrete às calças a sua roupa está pejada de alfinetes de ama. Nas calças quase de centímetro em centímetro: de vários tamanhos, em vários estados de brilho e antiguidade, um espécime enorme com uma cabeça cor de rosa de plástico. Escreve numa lista telefónica com uma caneta bic, palavras com letras enormes. Completa uma página na viagem, sempre concentrado algures.
Sunday, September 9, 2007
Jantar I
Ela entra no elevador com o cão. Ambos longilíneos e nervosos, olhos salientes. O bicho parece um whippet, uma espécie de galgo pequeno. Dizem que os donos gradualmente se parecem cada vez mais com os seus animais de estimação. Ou marido e mulher. Padrões de imitação invisíveis.
O galgo encosta-se à parede, contrariamente ao que parece num momento de bravura pois não está protegido ao colo como às vezes acontece.
"Grocery shopping?"
"Yeah. Hard without pots and pans."
"I only eat fruits and vegetables."
"So do I."
Quase que não minto, áparte os pequenos cadáveres de umas anchovas italianas que pelejarão com memórias cantábricas. Pão estilo Como para torrar no forno e alcaparras Non-Pareil, assim esperamos, para fazer companhia aos peixinhos. Quem me conhece já sabe que para mim as anchovas vão a banhos em água e depois de limpa a substancia verdosa que os conserveiros chamam azeite, são aconchegadas com as alcaparras num azeite virgem de primeira, onde descansam uns bons minutos.
Abacates, alho, tomate, pimenta preta e a dúvida dolorosa entre usar Chiles vermelhos ou jalapeños. Muitos coentros frescos e o sumo de lima a fazer falta pela ligeireza que confere ao paladar do abacate.
O jogo é o do costume. Pão tostado com azeite, às vezes esfregado com tomate em homenagem a essa Catalunya do coração, e depois guacamole ou anchovas com alcaparras.
Dois queijos surpreendentes de Washington, ambos recomendáveis. Sally Jackson de Ovelha, que tem uma frescura leitosa acrescida de umas notas deliciosas que lhe veem das folhas de figueira em que vem envolvido. Um Quillasacut de cabra que para mim ganha o comparativo de longe, denso, forte com as culturas bacterianas a inundarem o nariz. O Blue Oregon é decente mas quem tem Roquefort não precisa dele.
Por último umas amoras belíssimas e sour cream amargo, discreto e pronto a acolher as gotas sanguíneas das bagas. Na verdade rosa, mas o exagero justifica-se pelo sabor. Estamos na sua época que eu vi-as silvestres a insinuarem-se apetitosas nos arbustos. E é sempre bom relembrar no fim da refeição acompanhar as notas musicais do vinho.
Quando saí do supermercado fiz uma brincadeira de menino. Se tivessem caído três amoras da caixa para o saco comia-as. Assim aconteceu, se bem que um alto na base do saco denunciava fugitivas esmagadas por baixo da caixa. Como não estavam à vista não contavam e foram sacrificadas quando cheguei a casa. Estavam doces e a rebentar de sabor.
Mesmo tendo decidido mentir a todas as mulheres que se cruzem no meu caminho e limitar-me a dizer-lhe o que seja mais harmónico e desejável, apenas minto esporadicamente e por desatenção.
Vou abrir a garrafa de Rivola 2003 (Abadia Retuerta, Sardón del Duero, España). Obrigado J.
Desert Blues a tocar. Brindo aos amigos, como sempre se deve fazer mesmo no meio de farta
companhia.
O galgo encosta-se à parede, contrariamente ao que parece num momento de bravura pois não está protegido ao colo como às vezes acontece.
"Grocery shopping?"
"Yeah. Hard without pots and pans."
"I only eat fruits and vegetables."
"So do I."
Quase que não minto, áparte os pequenos cadáveres de umas anchovas italianas que pelejarão com memórias cantábricas. Pão estilo Como para torrar no forno e alcaparras Non-Pareil, assim esperamos, para fazer companhia aos peixinhos. Quem me conhece já sabe que para mim as anchovas vão a banhos em água e depois de limpa a substancia verdosa que os conserveiros chamam azeite, são aconchegadas com as alcaparras num azeite virgem de primeira, onde descansam uns bons minutos.
Abacates, alho, tomate, pimenta preta e a dúvida dolorosa entre usar Chiles vermelhos ou jalapeños. Muitos coentros frescos e o sumo de lima a fazer falta pela ligeireza que confere ao paladar do abacate.
O jogo é o do costume. Pão tostado com azeite, às vezes esfregado com tomate em homenagem a essa Catalunya do coração, e depois guacamole ou anchovas com alcaparras.
Dois queijos surpreendentes de Washington, ambos recomendáveis. Sally Jackson de Ovelha, que tem uma frescura leitosa acrescida de umas notas deliciosas que lhe veem das folhas de figueira em que vem envolvido. Um Quillasacut de cabra que para mim ganha o comparativo de longe, denso, forte com as culturas bacterianas a inundarem o nariz. O Blue Oregon é decente mas quem tem Roquefort não precisa dele.
Por último umas amoras belíssimas e sour cream amargo, discreto e pronto a acolher as gotas sanguíneas das bagas. Na verdade rosa, mas o exagero justifica-se pelo sabor. Estamos na sua época que eu vi-as silvestres a insinuarem-se apetitosas nos arbustos. E é sempre bom relembrar no fim da refeição acompanhar as notas musicais do vinho.
Quando saí do supermercado fiz uma brincadeira de menino. Se tivessem caído três amoras da caixa para o saco comia-as. Assim aconteceu, se bem que um alto na base do saco denunciava fugitivas esmagadas por baixo da caixa. Como não estavam à vista não contavam e foram sacrificadas quando cheguei a casa. Estavam doces e a rebentar de sabor.
Mesmo tendo decidido mentir a todas as mulheres que se cruzem no meu caminho e limitar-me a dizer-lhe o que seja mais harmónico e desejável, apenas minto esporadicamente e por desatenção.
Vou abrir a garrafa de Rivola 2003 (Abadia Retuerta, Sardón del Duero, España). Obrigado J.
Desert Blues a tocar. Brindo aos amigos, como sempre se deve fazer mesmo no meio de farta
companhia.
Saturday, August 25, 2007
Regresso a Lisboa II - Enclave e Lura!
Estava quase decidido a ir para casa mas decidi ir ao En'Clave. Casa cheia, Kalu Moreira a cantar ao vivo. Que saudades tão grandes que tinha de ouvir música de Cabo-Verde ao vivo, coladera, morna, funaná, batuku e até o que parecia ser uma tabanka! Lembro as primeiras vezes que fui ao B.Leza e o deslumbramento e o calor interior que nos invade com esta música e a alegria das pessoas. Acompanham Costa Neto no baixo, Kau Paris na bateria, e não sei o nome do teclista e do guitarrista.
Lá para o fim da primeira parte ouço uma voz bonita de mulher e no palco está uma senhora que estava sentada perto de mim. A princesa do reino musical de Cabo-Verde, Lura, com aquele vozeirão que nem precisa de microfone. Duas músicas, simplicidade e simpatia, o batuku Ma'n Ba Des Bes Kumida Da e o inevitável Nariná cantado em coro. Rolando também cantou. Foi bom rever algumas pessoas.
Vim-me embora com 'Um Cria ser Poeta' do Paulino Vieira:
Se na Mundo tem
morna e morna dedicote
tonte morna ke bô ta merece
se beleza ta trazebo inspiração.
Esse bô beleza
ke mais k'um belo horizonte
enfeitod k'um bom pôr do sol
ou um arco íris
muito bem estakote.
A mi ja'm cria ser poeta
pam fazê um mar de poesia
pam compara esse bô beleza ku
natureza
parcém nem mar nem lua cheia
ném sol brilhante nem noite
serena
sta compara ku formuzua di bô
corpo.
Pombinha mansa
di odjos meigos sem maldade
Bô corpo formoso mas sem vaidade
tarmá kes bô sorrise inocente.
Sorriso doce ki ta desperta
alguém ambição
mesmo ke for debôche de tud
humilhação
cré conquista bô coração.
Lá para o fim da primeira parte ouço uma voz bonita de mulher e no palco está uma senhora que estava sentada perto de mim. A princesa do reino musical de Cabo-Verde, Lura, com aquele vozeirão que nem precisa de microfone. Duas músicas, simplicidade e simpatia, o batuku Ma'n Ba Des Bes Kumida Da e o inevitável Nariná cantado em coro. Rolando também cantou. Foi bom rever algumas pessoas.
Vim-me embora com 'Um Cria ser Poeta' do Paulino Vieira:
Se na Mundo tem
morna e morna dedicote
tonte morna ke bô ta merece
se beleza ta trazebo inspiração.
Esse bô beleza
ke mais k'um belo horizonte
enfeitod k'um bom pôr do sol
ou um arco íris
muito bem estakote.
A mi ja'm cria ser poeta
pam fazê um mar de poesia
pam compara esse bô beleza ku
natureza
parcém nem mar nem lua cheia
ném sol brilhante nem noite
serena
sta compara ku formuzua di bô
corpo.
Pombinha mansa
di odjos meigos sem maldade
Bô corpo formoso mas sem vaidade
tarmá kes bô sorrise inocente.
Sorriso doce ki ta desperta
alguém ambição
mesmo ke for debôche de tud
humilhação
cré conquista bô coração.
Regresso a Lisboa I
Depois de um dia calmo telefono a toda a gente das danças e ninguém está cá por Lisboa, ou não vai sair. Decido ir à aventura. Ponho o Di korpu ku alma da Lura, e cá vou eu. Procuro o Nell's no Campo Grande, e na segunda vez que passo por baixo da 2ª Circular o que parece ser um acidente. Carros em desalinho, um da polícia parado, outro a ultrapassar-me, e em poucos segundos a estrada está selada, e o trânsito desviado. Um corpo inerte no chão, vestido de branco, vulnerável. De repente mexe-se e põe-se de lado, no asfalto, como se procurasse proteger-se. No desvio para a direita está a metade de trás de um Volkswagen Golf, partido como um pão. Não consigo descobrir a outra parte. No chão as cores tristes dos objectos que saltaram dos carros. A polícia tenta afastar a pequena multidão que se formou e exapera-se com o lento cortejo que não quer passar.
Cinco minutos antes tinha passado ali naquele mesmo sítio. A nossa fragilidade é tão flagrante que penetrar-lhe no segredo e pedir-lhe presença assídua seria insuportável. Basta vivermos com ela. Recordo Omar Khayam e o seu desprezo pelo dia de ontem e pelo dia de amanhã.
Cinco minutos antes tinha passado ali naquele mesmo sítio. A nossa fragilidade é tão flagrante que penetrar-lhe no segredo e pedir-lhe presença assídua seria insuportável. Basta vivermos com ela. Recordo Omar Khayam e o seu desprezo pelo dia de ontem e pelo dia de amanhã.
Autocarro II
É Sexta-Feira e um sol alaranjado entra pela janela. O autocarro está quase vazio. Entram três negros. Um de muletas devido a uma mal formação das pernas, com uniforme de segurança, senta-se nos bancos laterais da frente diante de mim. À sua direita senta-se um jovem e no banco a seu lado um homem de 30 anos enorme com de voz grave. A música que os africanos imprimem às línguas distingue-se, pela variedade rítmica e melódica, das outras pronúncias. Pausas, acelerações, entrar tarde no tempo, melodia, tempos secos, agudos emocionais, inflexões. Improviso de jazz difícil de repetir no papel.
'Man I don't walk more than a mile. I am here for six months and it took me some time but I managed to get it just right. You, when when you walk one of those streets that climb you can have a stroke and just die! That's right, man. If I go downtown, to the Public Library, I take a bus, I get out and walk one block, just one block, than I get another and it gets me right to the door and that's it. No way I'm gonna walk for miles.'
O cansaço do trabalho ou a vergonha de ser pedestre no país dos carros? Nas pausas que ele nos concede, o rapaz e o segurança assentem e rimos a bom rir.
O segurança também conta como se prepara para sair do trabalho. 'Everyone knows they should be out a long time ago, so I just close the doors and if someone's in it stays until Monday!'
Gente cansada de trabalho, riso contagiante e especial dos africanos unindo as pontas soltas.
'Man I don't walk more than a mile. I am here for six months and it took me some time but I managed to get it just right. You, when when you walk one of those streets that climb you can have a stroke and just die! That's right, man. If I go downtown, to the Public Library, I take a bus, I get out and walk one block, just one block, than I get another and it gets me right to the door and that's it. No way I'm gonna walk for miles.'
O cansaço do trabalho ou a vergonha de ser pedestre no país dos carros? Nas pausas que ele nos concede, o rapaz e o segurança assentem e rimos a bom rir.
O segurança também conta como se prepara para sair do trabalho. 'Everyone knows they should be out a long time ago, so I just close the doors and if someone's in it stays until Monday!'
Gente cansada de trabalho, riso contagiante e especial dos africanos unindo as pontas soltas.
Primeiro parágrafo
"Ships at a distance have every man's wish on board. For some they come in with the tide. For others they sail forever on the horizon, never out of sight, never landing until the Watcher turns his eyes away in resignation, his dreams mocked to death by Time. That is the life of men.
Now, women forget all those things they don't want to remember, and remember everything they don't want to forget. The dreams is the truth. Then they act and do things accordingly."
Their Eyes Were Watching God, Zora Neale Hurston, Harper
Now, women forget all those things they don't want to remember, and remember everything they don't want to forget. The dreams is the truth. Then they act and do things accordingly."
Their Eyes Were Watching God, Zora Neale Hurston, Harper
Friday, August 24, 2007
Suquamish hour, sete e meia
A rapariga que passa na paragem
É mais pontual que o autocarro
Vejo-a uns segundos, real
Esfuma-se em passos
Reconheço o seu ritmo a um quarteirão
Leve como se calcorreasse Manhattan
Elástica e segura como a herdeira do Sound
Rosto antigo
Casaco de xadrez verde de kilt
Gabardine beige sobre saia branca
Boinas várias
Sapatos dourados de bailarina
Devia saudá-la e levantar-lhe o rosto
Oprime-me a energia das imagens de Curtis
É mais pontual que o autocarro
Vejo-a uns segundos, real
Esfuma-se em passos
Reconheço o seu ritmo a um quarteirão
Leve como se calcorreasse Manhattan
Elástica e segura como a herdeira do Sound
Rosto antigo
Casaco de xadrez verde de kilt
Gabardine beige sobre saia branca
Boinas várias
Sapatos dourados de bailarina
Devia saudá-la e levantar-lhe o rosto
Oprime-me a energia das imagens de Curtis
Pensieri del tè, Guido Ceronetti, último dos sábios
Due volte al giorno, verso le sei del matino e le cinque dellla sera, tazza ripetuta di Tè verde della Cina arriva con la sua infallibile virtù unitiva, confirmativa, risuscitativa, a disincagliarmi e a preservarmi da ogni specie d'inerzie, d'inebetimento, di abbattimento.
Messaggi clandestini, che trovano orecchio, avvolti in carta di riso, della Luce.
Non suono un Orientale. I miei gesti rituali non vengono dai Maestri; somigliano piuttosto ad un'abitudine carceraria, continuata negli anni. In piedi, sempre, vicino ad una finestra con la tendina scostata... Ma di Oriente orientante mi resta la fiducia che nell'uscire in giusta misura da se stessi , e abitualmente, non c'è nulla di pericoloso, e che vedere, sentire e incontrare spiriti non è inquietante.
Lo Spirito del Tè comincia appena disceso a operare. Leggere pressioni interne, agopunture invisibile, scatti tempestivi del sensorio, sampàn di lumettini, coloriture improvvise di silenzi, un susseguirse puntuale di eccitamenti che vanno dal'occhio interno (chè forse è un orecchio o una mano) lungo le disirrigidite vertebre, al coccige resurrecturo. Allora nel nuio molte finestrine tornano vive, e le parole faticano meno a ritrovare il loro principio negli spazi lontani. Pace del massaggio, radice del suono, bontà dello strofinamento to occulto. Guardare da una pause di connessione quel che è sconnesso e lacerato, è un momento senza morte. Fare arretrare di appena un poco il margine del finito, per molte ore rischiara.
Nel combattimento per contrastare mentalmente quel che nel tempo è verificabile come aggressione materialmente incontrastate della tenebra, da làmine liberatrice chè il Tè aiuta a ritrovare e a decifrare, imparo a non aborrire en eccesso le tenebre, per non distruggere le poche possibilità di penetrarne il segreto.
Senza curiosità disperata in continuo movimento, la disperazione non avrebbe limite.
Il soffio del Tè s'infondi negli angoli morti, non si sgomenta d'interrogare statue imbracate. Tra le crepe dell'arido introduce qualche sua goccia, allo scolorito ridà figura. Grattando le buche abbandonate ne fa uscire qualche suono di ribàb incantato. I pensieri non diventano miei con molta facilità; quelli miei chiunque se vuole può farli propii, qualunque sia el suo eccitante, senza bisogno di nome: il piensero non pronuncia né Tuo né Mio.
L'uomo beve il Tè perché lo angoscia l'uomo.
Il Tè beve l'uomo, l'erba più amara.
Copyright Adelphi Edizione S.P.A. Milano
Nota: Se por acaso conhecer outras excelsas dissertação sobre o espírito do chá, diga.
Messaggi clandestini, che trovano orecchio, avvolti in carta di riso, della Luce.
Non suono un Orientale. I miei gesti rituali non vengono dai Maestri; somigliano piuttosto ad un'abitudine carceraria, continuata negli anni. In piedi, sempre, vicino ad una finestra con la tendina scostata... Ma di Oriente orientante mi resta la fiducia che nell'uscire in giusta misura da se stessi , e abitualmente, non c'è nulla di pericoloso, e che vedere, sentire e incontrare spiriti non è inquietante.
Lo Spirito del Tè comincia appena disceso a operare. Leggere pressioni interne, agopunture invisibile, scatti tempestivi del sensorio, sampàn di lumettini, coloriture improvvise di silenzi, un susseguirse puntuale di eccitamenti che vanno dal'occhio interno (chè forse è un orecchio o una mano) lungo le disirrigidite vertebre, al coccige resurrecturo. Allora nel nuio molte finestrine tornano vive, e le parole faticano meno a ritrovare il loro principio negli spazi lontani. Pace del massaggio, radice del suono, bontà dello strofinamento to occulto. Guardare da una pause di connessione quel che è sconnesso e lacerato, è un momento senza morte. Fare arretrare di appena un poco il margine del finito, per molte ore rischiara.
Nel combattimento per contrastare mentalmente quel che nel tempo è verificabile come aggressione materialmente incontrastate della tenebra, da làmine liberatrice chè il Tè aiuta a ritrovare e a decifrare, imparo a non aborrire en eccesso le tenebre, per non distruggere le poche possibilità di penetrarne il segreto.
Senza curiosità disperata in continuo movimento, la disperazione non avrebbe limite.
Il soffio del Tè s'infondi negli angoli morti, non si sgomenta d'interrogare statue imbracate. Tra le crepe dell'arido introduce qualche sua goccia, allo scolorito ridà figura. Grattando le buche abbandonate ne fa uscire qualche suono di ribàb incantato. I pensieri non diventano miei con molta facilità; quelli miei chiunque se vuole può farli propii, qualunque sia el suo eccitante, senza bisogno di nome: il piensero non pronuncia né Tuo né Mio.
L'uomo beve il Tè perché lo angoscia l'uomo.
Il Tè beve l'uomo, l'erba più amara.
Copyright Adelphi Edizione S.P.A. Milano
Nota: Se por acaso conhecer outras excelsas dissertação sobre o espírito do chá, diga.
Fantasy over Channel Islands
first the blueish cinder sea, grainy leathered
with island scars
here they are, those mesmerizing low clouds
moss formations on rock
fields of drought cracked earth
two ponds of desert waved sand
a plane of white arctic snow
west, grey trees, a whole forest
a low parallel earth just above water
with island scars
here they are, those mesmerizing low clouds
moss formations on rock
fields of drought cracked earth
two ponds of desert waved sand
a plane of white arctic snow
west, grey trees, a whole forest
a low parallel earth just above water
Wednesday, August 22, 2007
Último dia
No último dia,
a manhã não imaginava a tarde,
e nenhuma memória sobrevive ao afogar
evitando o vivo afundamento
apenas esse frio começando na pele
avançando muito devagar
o medo no limite da medula dos ossos
pergunta que lã invisível
nos envolve antes
inegável dia, o primeiro.
a manhã não imaginava a tarde,
e nenhuma memória sobrevive ao afogar
evitando o vivo afundamento
apenas esse frio começando na pele
avançando muito devagar
o medo no limite da medula dos ossos
pergunta que lã invisível
nos envolve antes
inegável dia, o primeiro.
Monday, August 20, 2007
Aeroporto I
Saint Louis. Um casal de afro-americanos aproxima-se da porta de embarque. De repente param os dois a conversar e ela dirige-se a ele repetidas vezes. Ele responde a tudo 'Yes!', veemente, com os olhos arregalados. Umas dez vezes. Ela agita o saco plástico com os líquidos que distraidamente não pôs no trolley. De repente afasta-se e volta-se para dizer 'This isn't important but you maake it!". Deixa o saco com os produtos de beleza num banco e perante a aproximação de uma senhora vem-lhe diz-lhe que já os vem buscar. Sai para procurar algo. O homem vem recolher o saco plástico e examina o conteúdo reclamando 'Why does she need all this stuff?!', pondo rapidamente uma parte dos vernizes e cremes para o lixo, as embalagens mais pequenas. Passado uns minutos está na porta de embarque a pedir um documento para ir procurar a mulher. Mas antes de sair, levanta a tampa do caixote do lixo e vasculha no seu conteúdo as embalagens que tinha lá posto.
Wednesday, August 15, 2007
Autocarrro III
Uma rapariga com traços de índia vem descontraída, bata às riscas. De repente ela entra, aponta e senta-se. Uma negra enorme, óculos anos 70, cabelo com melenas encaracoladas, bonita, olha para o lugar vazio e senta-se suavemente. Pela forma como se senta de braços cruzados, arredondando o corpo ocupa o mesmo espaço que o passageiro anterior. Mas a companheira de banco encolhe-se, agarra as mãos com os ombros puxados para dentro, pousa apenas os bicos das botas no chão e contrai o rosto comprimindo os lábios num lamento. Parece horrorizada com a possibilidade do toque ou do incómodo. Depois da companheira sair permanece paralizada alguns segundos.
Tuesday, August 14, 2007
Autocarro I
M. entra de calções, boné de baseball e óculos. 40 e tal anos e aquela juventude que alguns doentes têm. Senta-se ao pé de uma rapariga loura que apesar de o conhecer e cumprimentar se ergue um pouco no assento. Então ele pergunta, tirando do bolso de trás um pequeno pente, a voz pausada , a pequena mão branca a tremer 'Can I comb your hair?', ao que ela responde 'No, I used hairspray'. Ele volta a pôr o pente no bolso enquanto resignado comenta 'You really like hairspray.'.
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