Saturday, September 15, 2007

Jantar II - Homenagem a Manuel Vásquez Montalbán


Foto de Hado Lyria em Vespito.net

Confesso que quem me ocorre invocar é Pepe Carvalho, essa personagem tão viva e completa que me acompanha nas horas menos boas, quase um amigo. Em simultâneo é a nemesis da minha geração, como se a nossa inconsciência política e ausência de posicionamento minorassem a nossa entrega ao cinismo. Não deixem de consultar a Crónica Sentimental de Espanha para uma guisado perfeito de literatura, humor, política e profundidade de análise.
Mas já servi um copo de vinho ao homem, Montalbán, está ao pé da garrafa, para evitar cerimónias. Um branco de Gironde que não envergonha ninguém. O Pepe tinha sempre garrafas múltiplas quando recebia amigos, mas hoje é só uma.

Ora no tacho já estão as cascas das gambas, os ossos e as gorduras da galinha do campo que formarão um caldo bafejado com as notas cítricas do Bordéus seco. E as cabeças das gambas? Nem vê-las que os Jívaros locais passaram por aqui, não se suporta ver os olhinhos dos bichos nos pratos!
A homenagem consiste na receita dos Pássaros de Bangkok, vermicelli com gambas e frango, e não fui à internet pois quero que isto seja de memória e coração.
Ora foi com esta receita que me converti aos guisos e aprendi a fazer o sofrito do azeite com a cebola, pimento e tomate à Josep Pla, sempre à beira da secura e concentrado.
Depois disso é apenas ter cuidado com os Vermicelli pois são muito sensíveis, às vezes dois minutos chegam para os cozer, depois de demolhados. Ficam com uma consistência parecida ao tacto com cabelo. Eu só arranjei Bifun, e espero que tenham as miraculosas propriedades de absorção e conservação de sabores que os bons Vermicelli têm.
Devo também ao Pepe um tesouro para quem é arisco ao refogado com o alho, e só o faz muito depois da cebola já estar a amaciar há muito tempo. O tesouro é deixar o alho picadinho em azeite virgem e pô-lo um ou dois minutos antes do fim. É inacreditável a suavidade do paladar do alho, mesmo quando posto em grandes quantidades.
Recapitulando, a cebola fica no tacho em azeite com uma colher de óleo de sésamo tostado. Depois de começar a dourar vem o pimento vermelho e depois o tomate em lata sem sumo.
Sempre a regular a temperatura para eliminar a humidade excessiva.
Os temperos foram sal, pimenta curcuma e meio jalapeño fresco.
Depois vem a galinha, previamente marinada em lima e sal.
É necessário ser generoso quando se faz o caldo pois a capacidade de absorção de líquido da massa de arroz é enorme, mesmo sendo ela delgadíssima.
Dois minutos é a altura de juntar as gambas, o Bifun, e o alhinho com o azeite a um minuto do final junto com coentros ou salsa frescos se for do vosso agrado. Acrescentei rebentos de bambu à receita. A iguaria deve repousar cinco minutos antes de ser servida.
As tostinhas hoje foram de uma baguete de Sourdough barrada com azeite e uns tomates cherry deliciosos.
Não caiam na esparrela de pôr o azeite no pão antes de este ir ao forno. Depois!

A música é o Sr Anibal Troilo a cantar com a Orquestra de Edmundo Rivero, que não tenho aqui boleros do agrado de Pepe Carvalho ou Mompu.
Um abraço invejoso a todos os que estão a dançar na festa de Cabo Verde na Incrível Almadense.

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