Sunday, September 9, 2007

Jantar I

Ela entra no elevador com o cão. Ambos longilíneos e nervosos, olhos salientes. O bicho parece um whippet, uma espécie de galgo pequeno. Dizem que os donos gradualmente se parecem cada vez mais com os seus animais de estimação. Ou marido e mulher. Padrões de imitação invisíveis.
O galgo encosta-se à parede, contrariamente ao que parece num momento de bravura pois não está protegido ao colo como às vezes acontece.
"Grocery shopping?"
"Yeah. Hard without pots and pans."
"I only eat fruits and vegetables."
"So do I."
Quase que não minto, áparte os pequenos cadáveres de umas anchovas italianas que pelejarão com memórias cantábricas. Pão estilo Como para torrar no forno e alcaparras Non-Pareil, assim esperamos, para fazer companhia aos peixinhos. Quem me conhece já sabe que para mim as anchovas vão a banhos em água e depois de limpa a substancia verdosa que os conserveiros chamam azeite, são aconchegadas com as alcaparras num azeite virgem de primeira, onde descansam uns bons minutos.
Abacates, alho, tomate, pimenta preta e a dúvida dolorosa entre usar Chiles vermelhos ou jalapeños. Muitos coentros frescos e o sumo de lima a fazer falta pela ligeireza que confere ao paladar do abacate.
O jogo é o do costume. Pão tostado com azeite, às vezes esfregado com tomate em homenagem a essa Catalunya do coração, e depois guacamole ou anchovas com alcaparras.
Dois queijos surpreendentes de Washington, ambos recomendáveis. Sally Jackson de Ovelha, que tem uma frescura leitosa acrescida de umas notas deliciosas que lhe veem das folhas de figueira em que vem envolvido. Um Quillasacut de cabra que para mim ganha o comparativo de longe, denso, forte com as culturas bacterianas a inundarem o nariz. O Blue Oregon é decente mas quem tem Roquefort não precisa dele.
Por último umas amoras belíssimas e sour cream amargo, discreto e pronto a acolher as gotas sanguíneas das bagas. Na verdade rosa, mas o exagero justifica-se pelo sabor. Estamos na sua época que eu vi-as silvestres a insinuarem-se apetitosas nos arbustos. E é sempre bom relembrar no fim da refeição acompanhar as notas musicais do vinho.
Quando saí do supermercado fiz uma brincadeira de menino. Se tivessem caído três amoras da caixa para o saco comia-as. Assim aconteceu, se bem que um alto na base do saco denunciava fugitivas esmagadas por baixo da caixa. Como não estavam à vista não contavam e foram sacrificadas quando cheguei a casa. Estavam doces e a rebentar de sabor.
Mesmo tendo decidido mentir a todas as mulheres que se cruzem no meu caminho e limitar-me a dizer-lhe o que seja mais harmónico e desejável, apenas minto esporadicamente e por desatenção.
Vou abrir a garrafa de Rivola 2003 (Abadia Retuerta, Sardón del Duero, España). Obrigado J.
Desert Blues a tocar. Brindo aos amigos, como sempre se deve fazer mesmo no meio de farta
companhia.

1 comment:

anandre said...

To read: "The Debt to Pleasure" by John Lanchester. The autobiography of the sinister gourmet Tarquin Winot.
Not that there's anything sinister about your lovely gourmandise.
You enjoy the subtleties - few people do.


"Alone and Drinking Under the Moon
Amongst the flowers I
am alone with my pot of wine
drinking by myself; then lifting
my cup I asked the moon
to drink with me, its reflection
and mine in the wine cup, just
the three of us; then I sigh
for the moon cannot drink,
and my shadow goes emptily along
with me never saying a word;
with no other friends here, I can
but use these two for company;
in the time of happiness, I
too must be happy with all
around me; I sit and sing
and it is as if the moon
accompanies me; then if I
dance, it is my shadow that
dances along with me; while
still not drunk, I am glad
to make the moon and my shadow
into friends, but then when
I have drunk too much, we
all part; yet these are
friends I can always count on
these who have no emotion
whatsoever; I hope that one day
we three will meet again,
deep in the Milky Way."

Li Po