Saturday, August 25, 2007

Regresso a Lisboa II - Enclave e Lura!

Estava quase decidido a ir para casa mas decidi ir ao En'Clave. Casa cheia, Kalu Moreira a cantar ao vivo. Que saudades tão grandes que tinha de ouvir música de Cabo-Verde ao vivo, coladera, morna, funaná, batuku e até o que parecia ser uma tabanka! Lembro as primeiras vezes que fui ao B.Leza e o deslumbramento e o calor interior que nos invade com esta música e a alegria das pessoas. Acompanham Costa Neto no baixo, Kau Paris na bateria, e não sei o nome do teclista e do guitarrista.
Lá para o fim da primeira parte ouço uma voz bonita de mulher e no palco está uma senhora que estava sentada perto de mim. A princesa do reino musical de Cabo-Verde, Lura, com aquele vozeirão que nem precisa de microfone. Duas músicas, simplicidade e simpatia, o batuku Ma'n Ba Des Bes Kumida Da e o inevitável Nariná cantado em coro. Rolando também cantou. Foi bom rever algumas pessoas.

Vim-me embora com 'Um Cria ser Poeta' do Paulino Vieira:

Se na Mundo tem
morna e morna dedicote
tonte morna ke bô ta merece
se beleza ta trazebo inspiração.

Esse bô beleza
ke mais k'um belo horizonte
enfeitod k'um bom pôr do sol
ou um arco íris
muito bem estakote.

A mi ja'm cria ser poeta
pam fazê um mar de poesia
pam compara esse bô beleza ku
natureza
parcém nem mar nem lua cheia
ném sol brilhante nem noite
serena
sta compara ku formuzua di bô
corpo.

Pombinha mansa
di odjos meigos sem maldade
Bô corpo formoso mas sem vaidade
tarmá kes bô sorrise inocente.

Sorriso doce ki ta desperta
alguém ambição
mesmo ke for debôche de tud
humilhação
cré conquista bô coração.

Regresso a Lisboa I

Depois de um dia calmo telefono a toda a gente das danças e ninguém está cá por Lisboa, ou não vai sair. Decido ir à aventura. Ponho o Di korpu ku alma da Lura, e cá vou eu. Procuro o Nell's no Campo Grande, e na segunda vez que passo por baixo da 2ª Circular o que parece ser um acidente. Carros em desalinho, um da polícia parado, outro a ultrapassar-me, e em poucos segundos a estrada está selada, e o trânsito desviado. Um corpo inerte no chão, vestido de branco, vulnerável. De repente mexe-se e põe-se de lado, no asfalto, como se procurasse proteger-se. No desvio para a direita está a metade de trás de um Volkswagen Golf, partido como um pão. Não consigo descobrir a outra parte. No chão as cores tristes dos objectos que saltaram dos carros. A polícia tenta afastar a pequena multidão que se formou e exapera-se com o lento cortejo que não quer passar.
Cinco minutos antes tinha passado ali naquele mesmo sítio. A nossa fragilidade é tão flagrante que penetrar-lhe no segredo e pedir-lhe presença assídua seria insuportável. Basta vivermos com ela. Recordo Omar Khayam e o seu desprezo pelo dia de ontem e pelo dia de amanhã.

Autocarro II

É Sexta-Feira e um sol alaranjado entra pela janela. O autocarro está quase vazio. Entram três negros. Um de muletas devido a uma mal formação das pernas, com uniforme de segurança, senta-se nos bancos laterais da frente diante de mim. À sua direita senta-se um jovem e no banco a seu lado um homem de 30 anos enorme com de voz grave. A música que os africanos imprimem às línguas distingue-se, pela variedade rítmica e melódica, das outras pronúncias. Pausas, acelerações, entrar tarde no tempo, melodia, tempos secos, agudos emocionais, inflexões. Improviso de jazz difícil de repetir no papel.
'Man I don't walk more than a mile. I am here for six months and it took me some time but I managed to get it just right. You, when when you walk one of those streets that climb you can have a stroke and just die! That's right, man. If I go downtown, to the Public Library, I take a bus, I get out and walk one block, just one block, than I get another and it gets me right to the door and that's it. No way I'm gonna walk for miles.'
O cansaço do trabalho ou a vergonha de ser pedestre no país dos carros? Nas pausas que ele nos concede, o rapaz e o segurança assentem e rimos a bom rir.
O segurança também conta como se prepara para sair do trabalho. 'Everyone knows they should be out a long time ago, so I just close the doors and if someone's in it stays until Monday!'
Gente cansada de trabalho, riso contagiante e especial dos africanos unindo as pontas soltas.

Primeiro parágrafo

"Ships at a distance have every man's wish on board. For some they come in with the tide. For others they sail forever on the horizon, never out of sight, never landing until the Watcher turns his eyes away in resignation, his dreams mocked to death by Time. That is the life of men.
Now, women forget all those things they don't want to remember, and remember everything they don't want to forget. The dreams is the truth. Then they act and do things accordingly."

Their Eyes Were Watching God, Zora Neale Hurston, Harper

Friday, August 24, 2007

Suquamish hour, sete e meia

A rapariga que passa na paragem
É mais pontual que o autocarro
Vejo-a uns segundos, real
Esfuma-se em passos

Reconheço o seu ritmo a um quarteirão
Leve como se calcorreasse Manhattan
Elástica e segura como a herdeira do Sound
Rosto antigo

Casaco de xadrez verde de kilt
Gabardine beige sobre saia branca
Boinas várias
Sapatos dourados de bailarina

Devia saudá-la e levantar-lhe o rosto
Oprime-me a energia das imagens de Curtis


Suquamish Woman
Edward S. Curtis (1913)
Wikipedia

Pensieri del tè, Guido Ceronetti, último dos sábios

Due volte al giorno, verso le sei del matino e le cinque dellla sera, tazza ripetuta di Tè verde della Cina arriva con la sua infallibile virtù unitiva, confirmativa, risuscitativa, a disincagliarmi e a preservarmi da ogni specie d'inerzie, d'inebetimento, di abbattimento.
Messaggi clandestini, che trovano orecchio, avvolti in carta di riso, della Luce.
Non suono un Orientale. I miei gesti rituali non vengono dai Maestri; somigliano piuttosto ad un'abitudine carceraria, continuata negli anni. In piedi, sempre, vicino ad una finestra con la tendina scostata... Ma di Oriente orientante mi resta la fiducia che nell'uscire in giusta misura da se stessi , e abitualmente, non c'è nulla di pericoloso, e che vedere, sentire e incontrare spiriti non è inquietante.
Lo Spirito del Tè comincia appena disceso a operare. Leggere pressioni interne, agopunture invisibile, scatti tempestivi del sensorio, sampàn di lumettini, coloriture improvvise di silenzi, un susseguirse puntuale di eccitamenti che vanno dal'occhio interno (chè forse è un orecchio o una mano) lungo le disirrigidite vertebre, al coccige resurrecturo. Allora nel nuio molte finestrine tornano vive, e le parole faticano meno a ritrovare il loro principio negli spazi lontani. Pace del massaggio, radice del suono, bontà dello strofinamento to occulto. Guardare da una pause di connessione quel che è sconnesso e lacerato, è un momento senza morte. Fare arretrare di appena un poco il margine del finito, per molte ore rischiara.
Nel combattimento per contrastare mentalmente quel che nel tempo è verificabile come aggressione materialmente incontrastate della tenebra, da làmine liberatrice chè il Tè aiuta a ritrovare e a decifrare, imparo a non aborrire en eccesso le tenebre, per non distruggere le poche possibilità di penetrarne il segreto.
Senza curiosità disperata in continuo movimento, la disperazione non avrebbe limite.
Il soffio del Tè s'infondi negli angoli morti, non si sgomenta d'interrogare statue imbracate. Tra le crepe dell'arido introduce qualche sua goccia, allo scolorito ridà figura. Grattando le buche abbandonate ne fa uscire qualche suono di ribàb incantato. I pensieri non diventano miei con molta facilità; quelli miei chiunque se vuole può farli propii, qualunque sia el suo eccitante, senza bisogno di nome: il piensero non pronuncia né Tuo né Mio.

L'uomo beve il Tè perché lo angoscia l'uomo.
Il Tè beve l'uomo, l'erba più amara.


Copyright Adelphi Edizione S.P.A. Milano

Nota: Se por acaso conhecer outras excelsas dissertação sobre o espírito do chá, diga.

Fantasy over Channel Islands

first the blueish cinder sea, grainy leathered
with island scars
here they are, those mesmerizing low clouds

moss formations on rock
fields of drought cracked earth
two ponds of desert waved sand
a plane of white arctic snow
west, grey trees, a whole forest

a low parallel earth just above water

Wednesday, August 22, 2007

Último dia

No último dia,
a manhã não imaginava a tarde,
e nenhuma memória sobrevive ao afogar
evitando o vivo afundamento

apenas esse frio começando na pele
avançando muito devagar
o medo no limite da medula dos ossos

pergunta que lã invisível
nos envolve antes

inegável dia, o primeiro.

Monday, August 20, 2007

Aeroporto I

Saint Louis. Um casal de afro-americanos aproxima-se da porta de embarque. De repente param os dois a conversar e ela dirige-se a ele repetidas vezes. Ele responde a tudo 'Yes!', veemente, com os olhos arregalados. Umas dez vezes. Ela agita o saco plástico com os líquidos que distraidamente não pôs no trolley. De repente afasta-se e volta-se para dizer 'This isn't important but you maake it!". Deixa o saco com os produtos de beleza num banco e perante a aproximação de uma senhora vem-lhe diz-lhe que já os vem buscar. Sai para procurar algo. O homem vem recolher o saco plástico e examina o conteúdo reclamando 'Why does she need all this stuff?!', pondo rapidamente uma parte dos vernizes e cremes para o lixo, as embalagens mais pequenas. Passado uns minutos está na porta de embarque a pedir um documento para ir procurar a mulher. Mas antes de sair, levanta a tampa do caixote do lixo e vasculha no seu conteúdo as embalagens que tinha lá posto.

Wednesday, August 15, 2007

Autocarrro III

Uma rapariga com traços de índia vem descontraída, bata às riscas. De repente ela entra, aponta e senta-se. Uma negra enorme, óculos anos 70, cabelo com melenas encaracoladas, bonita, olha para o lugar vazio e senta-se suavemente. Pela forma como se senta de braços cruzados, arredondando o corpo ocupa o mesmo espaço que o passageiro anterior. Mas a companheira de banco encolhe-se, agarra as mãos com os ombros puxados para dentro, pousa apenas os bicos das botas no chão e contrai o rosto comprimindo os lábios num lamento. Parece horrorizada com a possibilidade do toque ou do incómodo. Depois da companheira sair permanece paralizada alguns segundos.

Tuesday, August 14, 2007

Autocarro I

M. entra de calções, boné de baseball e óculos. 40 e tal anos e aquela juventude que alguns doentes têm. Senta-se ao pé de uma rapariga loura que apesar de o conhecer e cumprimentar se ergue um pouco no assento. Então ele pergunta, tirando do bolso de trás um pequeno pente, a voz pausada , a pequena mão branca a tremer 'Can I comb your hair?', ao que ela responde 'No, I used hairspray'. Ele volta a pôr o pente no bolso enquanto resignado comenta 'You really like hairspray.'.