Sunday, September 30, 2007

Lemur 2007-09-22 (to Ernst Mayr)

Our eyes are big

We are small,
insignificant,
hidden in trees
only moving, carefully
in the night

sometimes our bodies
still shake to the stampede
of old big beasts
and we cling to branches

beasts are gone

we are still inside you
somewhere
small man

Two sidewalks 2007-09-25

The steep street
Her minuscule steps and dress
Stilletos beat irregular compass
On concrete, bordering collapse
Entering the night of parties.

Just across, on the porch
of the film center
crouched tiny body,
woman or youngster
already asleep.

Goin' Home 2007-09-26

You're no home
girl

door opens
fire place
or
place on fire?

Elis Regina canta Belchior

Bela letra, remetendo para os anos 60, muito mais rock que bossa nova, saco cheio da ditadura a alertar para as nossas ditaduras internas, pais, genes, conformismo. Elis Regina com garra de rockeira.

Elis Regina - Como Nossos Pais
Belchior
Não quero lhe falar meu grande amor das coisas
que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi e tudo que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar, eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto é menor do
que a vida de qualquer pessoa
Por isso cuidado meu bem, há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal está fechado prá nós
que somos jovens
Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz
Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada com uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração
Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento,
gente jovem reunida
Na parede da memória essa lembrança é o quadro
que dói mais
Minha dor é perceber que apesar de termos feito
tudo que fizemos

Ainda somos os mesmos e vivemos...
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais

Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências
não enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que 'eu tô por fora, ou então
que eu tô inventando'
Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem
Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência
e juventude
Tá em casa guardado por Deus contando vil metal
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo,
tudo, tudo que fizemos

Nós ainda somos os mesmos e vivemos...
Ainda somos os mesmos e vivemos...
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais!

(Letra retirada de vagalume.uol.com.br)

Notas a precisar de revisão

Um amigo ouve uma música e lembra-se de outro.
Quando um amigo se lembra de outro dá-lhe existência.
Existência mais que possível, a da imaginação vivida, à distância sem rede?

Suspeito que atingimos nesses momentos uma parcela desse sentido que tanto nos atormenta.
Enquanto não caminhamos na criação espontânea do laço, o que importa é existir algures, na imaginação de alguém.

Sonhei contigo esta noite, acordado. Mas estavas lá. Vivias em dois sítios, multiplicavaste.

Cores Tristes

Cores tristes

suaves, até cortinados
azuis, efémeros rosas
tremeluzentes
televisores
janelas de gente alheia
esbugalhada

Jantar III - Sabores Africanos 2007-09-22

Hoje começo por abrir uma garrafa de Quinta dos Roques 2003. Quem viu o Dão há uns dez anos e quem o vê. O Douro conserva o seu reinado mas terá pelas Beiras um adversário sofisticado dentro de alguns anos.
O vinho revela-se extremamente equilibrado com o carvalho a emoldurar o conjunto de frutos silvestres muito maduros e um ligeiro toque picante da casta Jaen no final que considero bem agradável. Agrada-me a coragem de incluir esta casta indomável num vinho.
A baguete Sourdough estava morna. Compro Mozzarella de vaca, à partida conformado com a sua falta de carácter, mas vingo-me com uns tomates cherry e um basilico que escurece em sucos quando o corto e se revela de uma doçura final de anis deliciosa.
O azeite é um DO Baena que isto de poupar na qualidade do azeite para consumir frio tem custos elevadíssimos.
Atiro umas kalamatas para o meio e lá vou aquecendo pão e preparando o jantar.
A receita é do "Na Roça com Tachos", e é uma receita de S. Tomé, camarão com banana pão.
Refogado de cebola, gengibre e meio chile vermelho, acrescenta-se o tomate e já está.
Eu, fraco e pobre, não resisti a acrescentar uns pedacinhos de mandioca fresca o meu sabor africano de eleição.
O camarão são cinco minutos, a mandioca outros cinco e a banana menos.
A ligação entre a banana e o camarão, com o pano de fundo do gengibre, é daqueles casamentos abençoados, como o tomate e a mozarella, com o basílico a perfumar.
Que saudades de moamba e cachupa, sabores simples e intensos dessa Lisboa atlântica, mas como deve ser, até lá baixo ao Cabo da Boa Esperança.
Para aqueles que se riam das minhas saudades de dançar e de ouvir música africana tenho duas palavras:
Dobet Gnahore.
Vem da Costa do Marfim a Seattle, de propósito para matar as minhas saudades de calor africano, canta bem e dizem que tem uma energia ao vivo espectacular.
Agradecimentos ao Jazz Alley que já acolheu a Lura nesta cidade cosmopolita.
Mas hoje a música ao jantar foi outra. O Concerto Italiano de J.S.Bach e outras pérolas pela Sra Dna Angela Hewitt.
A alma fica a sentir que se esta música cessar ela morre, como se ela fosse o próprio fio condutor da vida e da emoção.
Se algum dia me virem num caixote de madeira procurem no ipod algum Bach para tecla ou alguma apoteose de Rameau ou Lully.
Sei que os meus amigos cantarão em coro o 'Catalogo' do D.Giovanni e rirão a bandeiras despregadas das minhas espiritualidades vínicas e gastronómicas.
'Madamina, il catalogo è questo', bem hajas Giuseppe Taddei, grande Leporello.

Saturday, September 15, 2007

Jantar II - Homenagem a Manuel Vásquez Montalbán


Foto de Hado Lyria em Vespito.net

Confesso que quem me ocorre invocar é Pepe Carvalho, essa personagem tão viva e completa que me acompanha nas horas menos boas, quase um amigo. Em simultâneo é a nemesis da minha geração, como se a nossa inconsciência política e ausência de posicionamento minorassem a nossa entrega ao cinismo. Não deixem de consultar a Crónica Sentimental de Espanha para uma guisado perfeito de literatura, humor, política e profundidade de análise.
Mas já servi um copo de vinho ao homem, Montalbán, está ao pé da garrafa, para evitar cerimónias. Um branco de Gironde que não envergonha ninguém. O Pepe tinha sempre garrafas múltiplas quando recebia amigos, mas hoje é só uma.

Ora no tacho já estão as cascas das gambas, os ossos e as gorduras da galinha do campo que formarão um caldo bafejado com as notas cítricas do Bordéus seco. E as cabeças das gambas? Nem vê-las que os Jívaros locais passaram por aqui, não se suporta ver os olhinhos dos bichos nos pratos!
A homenagem consiste na receita dos Pássaros de Bangkok, vermicelli com gambas e frango, e não fui à internet pois quero que isto seja de memória e coração.
Ora foi com esta receita que me converti aos guisos e aprendi a fazer o sofrito do azeite com a cebola, pimento e tomate à Josep Pla, sempre à beira da secura e concentrado.
Depois disso é apenas ter cuidado com os Vermicelli pois são muito sensíveis, às vezes dois minutos chegam para os cozer, depois de demolhados. Ficam com uma consistência parecida ao tacto com cabelo. Eu só arranjei Bifun, e espero que tenham as miraculosas propriedades de absorção e conservação de sabores que os bons Vermicelli têm.
Devo também ao Pepe um tesouro para quem é arisco ao refogado com o alho, e só o faz muito depois da cebola já estar a amaciar há muito tempo. O tesouro é deixar o alho picadinho em azeite virgem e pô-lo um ou dois minutos antes do fim. É inacreditável a suavidade do paladar do alho, mesmo quando posto em grandes quantidades.
Recapitulando, a cebola fica no tacho em azeite com uma colher de óleo de sésamo tostado. Depois de começar a dourar vem o pimento vermelho e depois o tomate em lata sem sumo.
Sempre a regular a temperatura para eliminar a humidade excessiva.
Os temperos foram sal, pimenta curcuma e meio jalapeño fresco.
Depois vem a galinha, previamente marinada em lima e sal.
É necessário ser generoso quando se faz o caldo pois a capacidade de absorção de líquido da massa de arroz é enorme, mesmo sendo ela delgadíssima.
Dois minutos é a altura de juntar as gambas, o Bifun, e o alhinho com o azeite a um minuto do final junto com coentros ou salsa frescos se for do vosso agrado. Acrescentei rebentos de bambu à receita. A iguaria deve repousar cinco minutos antes de ser servida.
As tostinhas hoje foram de uma baguete de Sourdough barrada com azeite e uns tomates cherry deliciosos.
Não caiam na esparrela de pôr o azeite no pão antes de este ir ao forno. Depois!

A música é o Sr Anibal Troilo a cantar com a Orquestra de Edmundo Rivero, que não tenho aqui boleros do agrado de Pepe Carvalho ou Mompu.
Um abraço invejoso a todos os que estão a dançar na festa de Cabo Verde na Incrível Almadense.

Wednesday, September 12, 2007

Autocarro IV

O negro entra com uma pála no olho direito e um barrete azul com letras amarelas dos Bellevue Wolverines. Tem um carro de rede de compras com os seus pertences e produtos de limpeza vários, que prende com um elástico de segurança a uma das barras do autocarro. Uma embalagem de limpa-vidros cai, eu apanho-a e faço menção de lha dar mas ele aponta soberano para o carro onde o súbito súbdito a deve colocar. Do barrete às calças a sua roupa está pejada de alfinetes de ama. Nas calças quase de centímetro em centímetro: de vários tamanhos, em vários estados de brilho e antiguidade, um espécime enorme com uma cabeça cor de rosa de plástico. Escreve numa lista telefónica com uma caneta bic, palavras com letras enormes. Completa uma página na viagem, sempre concentrado algures.

Sunday, September 9, 2007

Fotos do Terraço - Lake Union

Jantar I

Ela entra no elevador com o cão. Ambos longilíneos e nervosos, olhos salientes. O bicho parece um whippet, uma espécie de galgo pequeno. Dizem que os donos gradualmente se parecem cada vez mais com os seus animais de estimação. Ou marido e mulher. Padrões de imitação invisíveis.
O galgo encosta-se à parede, contrariamente ao que parece num momento de bravura pois não está protegido ao colo como às vezes acontece.
"Grocery shopping?"
"Yeah. Hard without pots and pans."
"I only eat fruits and vegetables."
"So do I."
Quase que não minto, áparte os pequenos cadáveres de umas anchovas italianas que pelejarão com memórias cantábricas. Pão estilo Como para torrar no forno e alcaparras Non-Pareil, assim esperamos, para fazer companhia aos peixinhos. Quem me conhece já sabe que para mim as anchovas vão a banhos em água e depois de limpa a substancia verdosa que os conserveiros chamam azeite, são aconchegadas com as alcaparras num azeite virgem de primeira, onde descansam uns bons minutos.
Abacates, alho, tomate, pimenta preta e a dúvida dolorosa entre usar Chiles vermelhos ou jalapeños. Muitos coentros frescos e o sumo de lima a fazer falta pela ligeireza que confere ao paladar do abacate.
O jogo é o do costume. Pão tostado com azeite, às vezes esfregado com tomate em homenagem a essa Catalunya do coração, e depois guacamole ou anchovas com alcaparras.
Dois queijos surpreendentes de Washington, ambos recomendáveis. Sally Jackson de Ovelha, que tem uma frescura leitosa acrescida de umas notas deliciosas que lhe veem das folhas de figueira em que vem envolvido. Um Quillasacut de cabra que para mim ganha o comparativo de longe, denso, forte com as culturas bacterianas a inundarem o nariz. O Blue Oregon é decente mas quem tem Roquefort não precisa dele.
Por último umas amoras belíssimas e sour cream amargo, discreto e pronto a acolher as gotas sanguíneas das bagas. Na verdade rosa, mas o exagero justifica-se pelo sabor. Estamos na sua época que eu vi-as silvestres a insinuarem-se apetitosas nos arbustos. E é sempre bom relembrar no fim da refeição acompanhar as notas musicais do vinho.
Quando saí do supermercado fiz uma brincadeira de menino. Se tivessem caído três amoras da caixa para o saco comia-as. Assim aconteceu, se bem que um alto na base do saco denunciava fugitivas esmagadas por baixo da caixa. Como não estavam à vista não contavam e foram sacrificadas quando cheguei a casa. Estavam doces e a rebentar de sabor.
Mesmo tendo decidido mentir a todas as mulheres que se cruzem no meu caminho e limitar-me a dizer-lhe o que seja mais harmónico e desejável, apenas minto esporadicamente e por desatenção.
Vou abrir a garrafa de Rivola 2003 (Abadia Retuerta, Sardón del Duero, España). Obrigado J.
Desert Blues a tocar. Brindo aos amigos, como sempre se deve fazer mesmo no meio de farta
companhia.